Frutas, amor e rock’n roll

Texto e fotos: Paulo Henrique Vivas*


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É do conhecimento de muitas pessoas que o Sul do Brasil é o responsável pela produção de boa parte das frutas brasileiras, principalmente daquelas que necessitam de um clima mais frio. Dentre elas, podemos citar a maçã e a pera como exemplos que dependem de uma condição climática amena para o seu pleno cultivo. No entanto, nem todos devem saber que foi a partir da realização do sonho de um casal, formado por um mineiro, nascido em Oliveira, e por uma inglesa, que se estabeleceu no município de São Tiago, no fim da década de 1990, a primeira plantação comercial de maçãs do estado de Minas Gerais.


Luiz Tiago de Almeida e Mary Anne Almeida, ambos com 48 anos de idade, são os proprietários da Fazenda Lua Dourada, localizada a cerca de dez quilômetros de São Tiago, sentido Oliveira, onde cultivam algumas variedades de frutas, desde 2000. Com uma área total plantada de 30 hectares, a propriedade conta atualmente com 70 mil pés de morango e cerca de 50 mil árvores frutíferas variadas, dentre maçãs, ameixas e pêssegos. A produção total gira em torno de 700 toneladas de frutas por ano.


A maçã, que é o carro-chefe da produção da fazenda, assim como o morango, a ameixa e o pêssego se adaptaram bem às condições de clima frio da região, favoráveis para o cultivo de frutas temperadas. Se isso já era um fator importante para quem deseja trabalhar com esse tipo de agronegócio, outro ponto determinante para que o casal se aventurasse na empreitada foi a enorme experiência que adquiriram nessa área trabalhando com frutas em países desenvolvidos como Inglaterra e Israel.


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Além do morango, o clima ameno da região do Campo das Vertentes favorece o cultivo de maçãs, pêssegos e ameixas

Podemos dizer que a história entre Mary e Tiago é repleta de coincidências, muito trabalho, determinação e coragem. O ponto de partida dessa jornada se inicia no fim da década de 1980, quando Tiago, ainda bem jovem, decide morar na Europa. Inicialmente, o destino seria a Suiça, mas uma parada em Madri, na Espanha, fez com que outros brasileiros o convencessem a ir para a Inglaterra. Ao chegar em território britânico, com pouquíssimo dinheiro e sem saber o idioma local, Tiago vai trabalhar na colheita de maçãs, atividade frequentada durante um ano. “Apesar da origem dos meus pais ser de São Tiago, eu não tinha experiência com o meio rural. Morei em Oliveira até os 12 anos, e depois disso residi em Belo Horizonte e São Paulo. Pode-se dizer que eu era uma pessoa bem urbana nessa época, mas possuía um ideal socialista de viver numa comunidade rural”, lembrou Tiago, que atuou na militância estudantil e sindical quando morou em BH.


No entanto, após esses doze meses na Inglaterra e com o visto de permanência no país expirado, Tiago foi obrigado a deixar a Terra da Rainha. E para não ser deportado ao Brasil, decide ir para o norte de Israel e procurar trabalho num kibutz, um tipo de comunidade agrícola autônoma israelita. Dica que foi sugerida por colegas judeus, que moravam na mesma pensão que a dele, em Londres. Chegando em Israel, Tiago mal sabia que alguns meses depois conheceria Mary, sua futura esposa, nascida na Inglaterra, mesmo país no qual havia sido “convidado” a se retirar, pouco tempo antes.


Mary Anne “Taylor” (sobrenome quando solteira) nasceu em Chichester, condado de West Sussex, numa histórica vila inglesa, onde morou até os 16 anos. Depois foi para Londres, onde estudou balé clássico até os 19 anos, quando teve que abandonar a atividade devido a lesões. Foi aí que decidiu morar em Israel para trabalhar em fazendas comunitárias ligadas ao agronegócio e que atraíam gente do mundo inteiro. De início, Mary ficaria em Israel somente por dois meses, mas acabou permanecendo por mais de dois anos, entre idas e vindas a Inglaterra e outros países. E foi quando esteve em Israel pela terceira vez que conheceu Tiago, num desses kibutz, momento em que decidiram namorar. Depois de seis meses, retornaram a Londres, e nos dois anos seguintes, Mary e Tiago trabalharam bastante e economizaram dinheiro para gastarem com viagens ao Brasil e para outras partes do mundo, principalmente no continente africano, onde conheceram 14 países.


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A maçã Eva é uma variante que envolve genes da variedade Anna, de origem israelense e da Gala, da Nova Zelândia

Em agosto de 1991, mês em que os dois fazem aniversário,Tiago e Mary decidiram se casar em Chichester, mesma localidade onde Mary nasceu. Trabalhando ainda nas colheitas de frutas pela Inglaterra, o casal descobriu que a produção de maçãs e peras era um ótimo negócio, pois o trabalho estava sendo rentável e que os ideais socialistas de antes já não eram tão mais motivantes perante os lucros do capitalismo. “Fomos convidados por um fazendeiro alemão a trabalhar em parceria de forma autônoma. Fazíamos as podas das árvores e organizávamos as colheitas. Nos sete anos seguintes, ralamos muito, juntamos dinheiro e fizemos vários cursos agrícolas como preparação para quando tivéssemos o nosso próprio terreno no Brasil e nossa própria produção de frutas”, contou Mary.


Depois do terreno comprado, onde hoje está localizada a Fazenda Lua Dourada, Mary e Tiago retornaram em definitivo ao Brasil, no final de 1998. Além do município de Barbacena, nenhum outro local na região praticava a produção comercial de frutas. Após várias experiências e pesquisas, resolveram cultivar a maçã Eva, uma espécie variante desenvolvida no Paraná e bem adaptada ao clima ameno e que envolve genes da variedade Anna, de origem israelense e da Gala, da Nova Zelândia.


Apesar de tomarem decisões em conjunto, o casal divide bem as funções no negócio e conta também com a ajuda dos filhos Melissa e Jason nos afazeres da fazenda, além da colaboração de 20 funcionários com carteira assinada e outros 25 colaboradores durante a safra da colheita. Enquanto Mary cuida da parte administrativa, contábil e controle de qualidade, Tiago se encarrega da parte relacionada à produção e parte técnica referente a podas, colheitas e pulverizações necessárias. Tiago explica que foram desenvolvidas e praticadas por ele técnicas particulares de arqueamento, espaçamento e poda de galhos, sendo essas inovações reconhecidas e praticadas até por outros produtores. Outra inovação pioneira em Minas praticada por eles foi a utilização da técnica de irrigação por gotejamento e fertirrigação, também trazida de Israel. Esse tipo de irrigação permite uma maior economia de água e evita perdas por evaporação.


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A propriedade possui área plantada de 30 hectares, com 70 mil pés de morango e cerca de 50 mil árvores frutíferas

Um grande diferencial em relação às produções de frutas do Sul do país é que a incidência de um clima mais seco nessa região diminui a ocorrência de fungos e consequentemente, há menos utilização de defensivos agrícolas. Desde 2004, uma parceria com o distribuidor Frutas América, da Ceasa, permite que as frutas produzidas sejam distribuídas por toda Minas Gerais, além de se serem encontradas também em estados como a Bahia e o Pará. Uma barraca localizada na entrada da fazenda, à margem da rodovia BR-494, também possibilita que viajantes e moradores de cidades próximas comprem diretamente, além das futas, biscoitos, lanches e um saboroso suco natural de morango.


Para o próximo triênio, com o crescimento e desenvolvimento de outras árvores já plantadas, a expectativa do casal de produtores é que possa atingir uma meta de produção de 1.000 toneladas por ano. Para o futuro, eles também esperam que possam produzir uvas, já que todas as condições climáticas da região são propícias para o seu cultivo.


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Experiência dos produtores no trabalho com frutas no exterior foi fundamental para a concretização do negócio

LUASTOCK


São Tiago tem uma relação estreita com a música, principalmente quando se fala de rock’ n roll. No passado, a cidade já contou com diversos importantes shows e pequenos festivais ao ar livre em locais como a famosa Paineira, a Praça de Esportes, Campo do Tupinambás e sítios da região. Mantendo essa tradição, acontece desde 2008, nas dependências da Fazenda Lua Dourada, um festival com diversas bandas de rock de BH e outros locais de região que recebe o nome de Luastock. A festa, uma espécie de camping-rock, tem como referência o lendário Festival de Woodstock, de 1969, realizado numa fazenda nos arredores de Nova Iorque. Sem fins lucrativos e com boa organização, o evento é realizado normalmente nos meses de abril ou maio e somente 400 convites são disponibilizados para amigos de Mary e Tiago que queiram curtir três dias de muito rock’ n roll, num clima de total descontração, paz e amor.


*Matéria publicada originalmente na Revista Viva Bem, edição 2, maio/junho 2015