Atendimento Online

.: Chrispim

Dom Pim Quixote

Guardado na memória da maioria dos são-tiaguenses, Chrispim José Ferreira, o Pim, é uma lenda viva que atravessou gerações e deixou marcas na lembrança de muitas pessoas

Douglas Caputo
Michele Santana


Em São Tiago, há quem acredite na imortalidade de uma das principais personagens da história local. Não é difícil encontrar pessoas mais velhas que confirmem a existência do místico matusalém da cidade.

No entanto, a perenidade do andarilho urbano não atravessou os séculos como muitos defendem. Consta em seus documentos sua idade correta: 75 anos. Mas, a vivência num universo boêmio e descompromissado, criou no imaginário popular a figura do caricato Dom Quixote de São Tiago, que continua, pelo menos na memória das pessoas, com sua errância infinita.

Este tempo que não se esgota ecoa, até hoje, através das notas desafinadas que vinham de sua gaita e de suas batidas descompassadas no peito. Coração rítmico da orquestra de um homem só.

O menino


Mas, Chrispim nem sempre teve essa vida de andarilho. Ele só deu os primeiros passos aos 13 anos de idade. Sua irmã, Amélia Carmem Cardoso, conta que “a mãe carregava ele nas ‘cadeiras’ pra cima e pra baixo”. Filho caçula de cinco irmãos, Pim é lembrado pela irmã “como um menino bobo, que nunca foi à escola”.



Mas de bobo Pim não tinha nada. Quando se desgrudou da barra da saia da mãe, ele mostrou a que veio ao mundo. “Foi só isso pra ele dar trabalho, porque ele andou demais. Não sossegava em casa e vivia perambulando pelas ruas da cidade”, conta Nela, como Chrispim chama a irmã.

Outra característica do Pim era inventar apelidos paras as pessoas. Ele não chamava ninguém pelo nome de batismo, mas usava referências quando queria cumprimentar ou chamar a atenção de alguém. A professora aposentada Madalena Caputo virou “Dica do Adi” na linguagem chrispiana.

“Dá mamá”

O apelido usado por Chrispim para chamar a atenção de Madalena veio numa situação que se repetiu com muitas mulheres de São Tiago. O que brincalhão queria mesmo era pedir “mamá”.

“Eu estava passando quando ouvi ele me chamar: Dica do Adi, Dica do Adi... dá mamá”. Envergonhada e brava com a situação, Madalena garante que não teve alternativa, senão “ameaçá-lo com uns tapas, que não foram dados”, garante Dica.

O comerciante Anival Floriano da Silva, o Nibal, conviveu com o Pim durante muitos anos no estabelecimento do cunhado, o famoso bar do João Aleluia. Nibal se diverte ao lembrar-se de uma história que envolve o Chrispim e tal do “mamá”.

“Ele sempre pedia ‘mamá’ para uma determinada mulher. Revoltada, ela contou pro marido, que prometeu uma lição ao ‘pilantra’. Certo dia, a mulher ficou no lugar que o Chrispim sempre passava e o marido ficou escondido nas proximidades. Quando o Chrispim chegou, percebeu a emboscada e ignorou a mulher. Ela achou estranho e, querendo a todo custo que o marido desse a lição, gritou para o Pim: ‘Não quer mamá hoje não!?’ Ele, como espertalhão que era, respondeu imediatamente: ‘Hoje não, hoje não. Chupou manga”, ri Nibal.

O cunhado de Pim, João Batista Cardoso, defende o parente como um filho. “Não foi ele quem inventou essa história de ‘mamá’. Tinha uma mulher que bebia muito e que andava por ai pra rua também. Foram os homens dos botecos que ensinaram para o Chrispim a pedir ‘mamá’ pra ela”, argumenta Cardoso. 

Festeiro

Comemorar o que quer que fosse era o passatempo predileto de Chrispim. Dorival Márcio de Castro, herdeiro do tradicional bar do Tião Coité, local de passagem obrigatória do errante, lembra como era o Natal perfeito do Pim.

“Ele sempre estava aqui, brincando com o pai. Quando era Natal, não tinha jeito, a gaita era o presente que ele não abria mão de receber. E a gente dava com a maior satisfação”, lembra Castro.

Já no Carnaval, Pim apenas incrementava a fantasia que usava diariamente e que ajudou a construir o mito. Sentado no bar do Tião Coité, a maquiagem rabiscada com batom pelo proprietário do estabelecimento reforçava o espírito carnavalesco do Quixote.

Cardoso confirma a história. “O Chrispim gostava muito. O Tião Coité era quem fantasiava. Ele pintava a cara do Chrispim toda de batom. A roupa dele chegava aqui em casa tudo pintada”, lembra.

Castro recorda também que Tião Coité, em certo carnaval, resolveu colocar uma dentadura de vampiro no Pim. “O problema foi para tirar. Ele não tinha dentes e produzia muita baba. Acabou sobrando pro pai retirar os dentes postiços”, comenta.

Nem na Quaresma, período em que cidades pequenas guardam silêncio, Pim sossegava. Ele gostava de fazer sua própria Encomendação de Almas, movimento não-ligado à Igreja que entoa cânticos chorosos e batidas de matraca em encruzilhadas para livrar almas do Purgatório.

Castro conta que Chrispim fazia questão de acordar a família toda com o seu próprio ritual. “Ele subia as escadas da casa do pai e cantava um choro doído. Depois, batia palmas para imitar a matraca”.

Já na Semana Santa, era um deus-nos-acuda. Depois de muita cachaça e cerveja que pedia em um copo de água mineral muito sujo, Pim não se conformava em ficar em casa. Gostava mesmo era de sair para a rua e imitar a cantoria de Verônica.

Cardoso conta que o fujão sempre encontrava um jeito de sair. “Teve uma Semana Santa que eu ia pra procissão. Antes, tive que trazer o Chrispim tonto pra casa. Depois, fui pra procissão. Já na igreja, recebi o recado de que ele tinha pulado a janela. Foi um custo danado encontrá-lo pela cidade e trazê-lo de volta”.

Mas, para o espírito livre de Chrispim, tudo acabava em bagunça. Não por acaso, Cardoso garante que “ele sempre foi festeiro, Carnaval, banda de música, ele ia atrás para segurar aqueles cartazes que a banda carregava. Folia de Reis. Tudo que era festa ele tava no meio. Era festa de Igreja, subia até no altar e mexia até com o padre”.

“Caixão preto”

Se as anedotas com as mulheres de São Tiago viraram um bordão do Pim, outra moda que pegou na cidade foram os gritos de “Vai morrer no caixão preto”, que eram destinados ao Quixote da gaita.

Não se sabe ao certo de onde veio a ladainha do “caixão preto”, mas, segundo Nibal, o comerciante, Chrispim teria herdado a achincalhação de outro doidivanas de São Tiago.

“Isso foi há muito tempo, quando um senhor chamado Joaquim Nicolau, doente também,  ficava irritado quando lhe diziam que ia morrer num caixão preto. As mesmas pessoas que falavam do tal caixão com o Joaquim, passaram a fazer medo no Chrispim desde que ele era criança”.

A família não confirma essa história e apresenta outra versão dos fatos. “Ele não tinha medo de caixão preto, o que ele não gostava é que falassem que ele ia morrer. Por isso, ficava bravo e saía resmungando”, conta Cardoso, cunhado de Pim.

Várias vezes Castro presenciou o galhofeiro xingar e atirar cuspe nas pessoas por conta do tal caixão preto. “Era a defesa dele. Os meninos mexiam com ele, falavam que ele ia morrer, o negócio de caixão preto. Às vezes um passava e batia nele. Então, a arma, a defesa do Pim, era jogar baba nas pessoas”, afirma.

Amigos

Apesar das muitas rusgas que teve com pessoas da cidade, Chrispim também soube cultivar amigos. Entre eles está Nibal e sua esposa, Nelimar Santiago. No casório dos dois, a maior surpresa veio justamente do Pim.

“Nem imaginamos como ele soube que nós íamos nos casar. Ele foi até o bar do Tião Coité e pediu uma caneca. Isso foi muito significativo e até hoje temos a canequinha que apelidamos de caneca do Chrispim”, conta Nelimar.

Outra amiga era a popularmente conhecida Tita, morta em 2005. Não havia um dia que o “cavaleiro andante” passasse sem almoçar na companhia da senhora.

Segundo a sobrinha da anfitriã, Maria de Lourdes Resende, a Cairu, “Tita adotou o Pim como um filho. Ela morava sozinha e sempre gostou de receber em sua casa pessoas como o Chrispim. E se a Tita não estava animada para fazer almoço só para ela, a presença do Chrispim lhe fornecia o ânimo suficiente para enfrentar o fogão”, afirma.

Depois da morte de Tita, Pim passou a filar o almoço no restaurante do ‘Zé’ Mauro. Antes da comida, ele clamava por um ‘aperitivo’, mas o dono do local recusava o pedido. Para compensar a falta de cachaça, Pim ganhou um lugar vip no restaurante.

“Ele ficava esperando o prato de comida numa cobertura do lado de fora, que fizemos especialmente para ele. E o almoço tinha que ter o que ele gostava como arroz, feijão, frango e quiabo. O dia que não tinha carne, ele pedia. Pedia mesmo, sem se preocupar se estava ganhando o almoço ou não”, afirma José Mauro.

E é com os olhos marejados que o dono do restaurante fala da amizade que preserva até hoje com Chrispim.

“Eu ainda vou à casa dele de vez em quando levar um pouco da comida. Certa vez, cheguei e ele já estava com o prato na mão, comendo aos poucos e meio desanimado. Quando me viu, disse todo entusiasmado ‘Zé!  Zé!’. Pegou o marmitex da minha mão e colocou o prato de lado”, conta José Mauro.

Exageros


Pim nunca se importou com os exageros que cometia. Com as pernas e os pés muito inchados e cheios de feridas, não deixava de perambular pelas ruas da cidade.

Outro exagero que Pim cometia sem nem se dar conta eram as bebedeiras sem limites. A falta de informação da família e a dificuldade de recursos para um tratamento especializado fez com que os parentes tomassem uma medida extrema. Foi preciso prender o errante em casa.

“No começo não foi nada fácil. Eu buscava na rua, fechava aqui dentro de casa. Ele ficava muito bravo e nem conseguia dormir. Mas, com o passar do tempo, O Chrispim foi se acostumando à nova vida e hoje não sai pra nada”, conta Cardoso.

Já faz quatro anos que Chrispim não anda pelas ruas da cidade. E há poucos meses foi diagnosticado com um câncer no reto. Por isso, viaja toda semana para tratamento radioterápico em Belo Horizonte.

Acamado e bastante debilitado, como mostram as fotos tiradas recentemente, Pim quase não se comunica e são poucas as pessoas que ele reconhece. Segundo o cunhado, o andarilho de outras épocas ainda continua sua jornada, mas apenas dentro de casa.

E pelo agravamento do estado de saúde, Chrispim depende das pessoas para atividades corriqueiras. Apesar do diagnóstico positivo para o câncer, o Quixote de São Tiago insiste em suas andanças sem fim pela memória de todo são-tiaguense.

Fonte e matéria original: http://www.credivertentes.com.br/?pagina=integra&cd_noticia=91

Versões antigas

E-mail Assinar Remover