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.: Lenda da Luz do Mundo

Luz do Mundo



Da janela da cozinha, Ermínia se lembra das
aparições da Luz do Mundo


Também não são raras as histórias de pessoas que já tiveram algum contato com objetos voadores que emitem luzes. Apesar de o nome ser diferente em cada cidade da região dos Campos das Vertentes, em São Tiago, a 45 quilômetros de São João del-Rei, o fenômeno é popularmente conhecido como “Luz do Mundo”. Por lá, a história é levada tão a sério, que tem até livro que trata sobre o assunto. Em 2008, a pedagoga aposentada, Ermínia Caputo, reuniu narrativas que ouviu e vivenciou ao longo dos anos. Na obra intitulada “Acaso são estes os Sítios Formosos?”, a escritora descreve cenas de aparição da Luz do Mundo.

Não existem estudos científicos sobre o fenômeno, mas no imaginário popular a explicação vem de fatos religiosos. A narrativa oral informa que a Luz do Mundo teve origem numa maldição. Uma jovem teria sido enterrada com uma fita que simboliza a irmandade católica das Filhas de Maria, o que é proibido. Por conta disso, a alma da moça se transformou em uma luz que vaga pelo mundo. Seu descanso só viria se algum corajoso lhe retirasse a fita. E gente disposta a fazer isso tem aos bocados em São Tiago.

Em seu livro, Ermínia relata o episódio de um senhor que desafiou o medo e tentou apanhar a fita do espírito. “No local denominado Vargem (próximo ao centro da cidade), a Luz aparecia muito, beirando o esbarrancado que há por lá. Um senhor muito simples, que vivia a puxar esterco para vender, dizia não ter medo da Luz e se propôs a tirar-lhe a fita de Filha de Maria. Um dia ela apareceu e, corajoso, ele chegou perto dela. À medida que se aproximava, ela ia se afastando, até que ele caiu no esbarrancado”. Ermínia diz que o homem não se machucou, mas também não conseguiu pegar o que queria.

Outra história de gente que enfrentou a tal Luz aconteceu numa noite de pescaria. O aposentado José Batista Santana, que garante já ter visto o fenômeno várias vezes, conta o medo que passou com um amigo. “A gente saiu para pescar num lugar conhecido como Ribeirão da Fábrica (a oito quilômetros do centro de São Tiago). No meio do caminho, encontramos um conhecido, que disse que a gente ia encontrar a Luz. Meu companheiro zombou do moço e falou que se encontrasse a Luz, ia puxar o seu pé. Quando a gente estava perto do Ribeirão, avistamos de longe uma brasa de fogo. Ficamos um pouco receosos, sem saber o que era aquela luz, mas continuamos. A luz foi ficando mais forte e clareou as águas do rio. Ficamos com tanto medo que resolvemos voltar para a cidade”, admite.

Mas o que a dupla de pescadores não esperava é que a Luz fosse acompanhá-los até bem próximo da cidade. “Quando a gente chegou perto duma porteira, lá estava ela. Sem saber o que fazer, tiramos o chapéu em respeito e passamos no meio do clarão. Depois disso ela voltou pro mato e sumiu dentro de um esbarrancado”. Santana conta ainda que ficou arrepiado, mas garante que o amigo ficou mais apavorado ainda e que nem teve coragem para puxar o pé da assombração. Depois desse episódio, o aposentado, ressabiado, afirma que “não se deve abusar com essas coisas”.

Esse não foi o único caso de aparição da Luz para a família Santana. O aposentado lembra que sua mãe viu o espectro perto do moinho que tinha na roça em que moravam. Sozinha com os filhos pequenos, Antônia Liberata de Jesus precisava buscar o fubá para o jantar. No meio do pasto, deparou-se com o clarão. O horror foi tanto que ela voltou às pressas para a fazenda. Mas a Luz a seguiu até uma porteira. Sem saber o que fazer, Antônia começou a rezar e passou no meio daquele brilho. Assim que chegou à casa, guardou os cachorros, ordenou que os filhos ficassem quietos e continuou a rezação. Logo em seguida a Luz foi embora.

Ermínia, a escritora, também garante já ter visto a Luz várias vezes da janela de casa, principalmente no entardecer. “Ora ela andava, ora ela aumentava de tamanho, ora ela abaixava o facho. Tinha cor amarelada. Eu nunca a ouvi chiar, mas tem muita gente que diz ter ouvido barulho vindo da Luz”. Ermínia não acredita na lenda da assombração com fita no pescoço e assegura que não sente medo. Mas, para ela o fenômeno pode ter explicação científica. “É alguma coisa natural. Pode ser um fogo-fátuo (gases de decomposição que em contato com oxigênio entram em combustão), um balãozinho. Eu acredito nisso, mesmo com tantas histórias de pessoas mais velhas e até da minha idade acreditarem no mito da Luz”, afirma.

Não se sabe ao certo de onde vem a lenda da Luz do Mundo. Hoje, poucas pessoas relatam sua aparição, apesar de quase todo mundo da cidade conhecer suas histórias. Ermínia diz que isso é um fato importante, porque se trata do registro da história de um povo. “Era um tempo que não havia luz elétrica, televisão, computador. Mas esses casos vêm da oralidade, do passar de um para outro. Eles tinham a função de alentar nas noites escuras. É um patrimônio imaterial. Assim como a gente tem os livros, as roupas, os álbuns dos antepassados, também temos que preservar esse tipo de patrimônio”, defende.

Fonte e matéria original: http://www.vanufsj.jor.br/2012/01/em-nome-do-pai.html

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