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.: Lenda da Lágrimas de Morte

Lágrimas de morte



Da casa da família Gabet restaram algumas pedras
e as ruínas do fogão à lenha


Dizem que em noites escuras, na região da Pavuna, a dois quilômetros do centro de São Tiago, o choro do espírito de uma mãe atordoa quem passa pelo local. Entre as ruínas de uma casa do início do século passado, a alma de Maria José Gabet, a Nhanhá Gabet, veste preto e vaga em gemidos e lágrimas pela morte dos sete filhos e do marido, fato ocorrido dia 13 de setembro de 1916. O espanto em torno do caso é por conta das circunstâncias das mortes. O pai da família, José Gabet, obrigou todos a tomar vermífugo. O remédio, na realidade, era estricnina, um veneno potente. Um a um, os filhos e o casal foram tombando em agonia. No entanto, Nhanhá Gabet sobreviveu graças à ajuda dos vizinhos. De 1916 a 1960, ano de sua morte, a matriarca nunca deixou de vestir roupas pretas, luto eterno que guardou em respeito à família.

Mas, o que teria motivado o pai a matar os filhos, a mulher e a cometer suicídio? Segundo as histórias contadas ao longo dos anos, José Gabet era um boiadeiro que sempre viajava em comitivas de gado para o oeste de Minas Gerais. Numa dessas idas, engravidou uma filha de coronel. “Isso aconteceu na ocasião em que o peão contraiu febre amarela e teve que ficar por mais tempo que o esperado numa fazenda que servia de pousada. Por lá, conheceu uma jovem com a qual teve um caso, e acabou tirando sua honra. O pai da moça, um homem muito rígido, prometeu vingança. Seu objetivo era matar José Gabet e sua família em São Tiago”, conta Ana Paula Lara, professora de história que fez sua monografia sobre o assunto.

Ainda de acordo com Ana Paula, a moça grávida teve pena do que poderia acontecer com boiadeiro. Mandou um mensageiro avisar José Gabet sobre risco que estava correndo. “Sem saber o que fazer e num ato desesperado, o peão foi a São João del-Rei e comprou veneno numa botica para matar toda a família. Depois de beber com o marido e dar o tal vermífugo para os filhos, Nhanhá Gabet percebeu que as crianças estavam agonizando. Ela começou a gritar e os vizinhos foram acudir. Ao verem a cena, os moradores do local deram leite para a mulher que vomitou o veneno”. Mas, para Ana Paula, “a mãe sobreviveu porque tomou veneno em cápsula, enquanto o resto da família ingeriu a estricnina em pó, que tem ação mais rápida no organismo”, afirma.

A comoção social em torno do caso gerou lendas sobre a família. A agente de saúde Kássia Campos morre de medo só de ouvir falar no nome de Nhanhá Gabet. Moradora de região próxima ao local do crime, ela conta que são comuns os relatos de pessoas que já ouviram o choro triste da mãe que perdeu os sete filhos. A própria agente de saúde relata já ter escutado gemidos vindos do lugar. “Quando eu era criança, fui com minhas irmãs e primas até a Pavuna. Lá, nós escutamos vozes de outras crianças, mas não tinha ninguém”. Nessa época, Kássia ainda não conhecia a história do crime. Foi na adolescência que ela descobriu sobre as mortes e encontrou uma explicação para o barulho de crianças que ouviu no passado. “Daí eu liguei os gritos daquelas crianças com as pessoas que haviam morrido. E isso gerou o pavor que tenho só de pensar naquele lugar”. A agente de saúde diz ainda que nem de carro gosta de passar pela Pavuna.

O comerciante João Batista de Andrade, o Batista, tem uma venda próxima ao local em que aconteceram as mortes da família Gabet. E ele próprio garante já ter visto coisas estranhas por lá. Em 1973, quando sua esposa entrou em trabalho de parto, teve que ir buscar uma parteira numa rua próxima de sua casa. No meio do caminho, ao avistar a Pavuna, viu uma luz estranha no local. “Sai de casa por volta das duas da madrugada e por acaso olhei para o caminho que levava à Pavuna. Vi uma luz na casa de Nhanhá Gabet. O clarão ia e voltava, parecendo procurar algo ou alguém. Isso me fez arrepiar e ao me lembrar das mortes, fiquei mais apavorado ainda”, lembra.

Em sua venda, típica do interior de Minas Gerais, Batista ouve contar muitas dessas histórias. A que chamou mais a atenção do comerciante foi a do enterro fantasma dos Gabet. Batista se lembra do relato de um homem que teria tido uma visão de assombrar. “Seu Geraldo Campos contava que depois de jogar baralho por um longo tempo na casa de um amigo, na cidade, precisava voltar para sua casa, na roça. O caminho era pela Pavuna e, como de costume, seguiu tranquilo em seu cavalo. Ao passar pela ‘cava’ que se estendia até próximo à casa dos Gabet, viu um funeral, com oito pessoas carregando um caixão. Achou aquilo estranho, principalmente porque era tarde da noite. Parou o cavalo, tirou o chapéu, fez uma oração e depois seguiu caminho. No dia seguinte voltou à cidade e, ao questionar algumas pessoas, inclusive o coveiro, descobriu que ninguém havia sido enterrado aquela noite”, diz Batista.



Nhanhá Gabet passou os resto de sua vida nessa casa,
no centro de São Tiago


Mas, a professora Ana Paula descarta essas versões sobrenaturais em torno do ocorrido. Para ela, não há justificativa para o choro póstumo de Nhanhá Gabet, já que a matriarca poderia ter feito isso ao longo dos 44 anos em que viveu sem a família. “Apesar do grande choque, ela levou sua vida em frente. Trabalhou em Bom Sucesso (cidade vizinha a São Tiago) como diretora de um orfanato e, ao voltar para sua terra, dedicou-se a ajudar quem necessitava. Boa parte do seu tempo passava dentro da Igreja”, comenta.

A história marcou o então distrito de São Tiago. O enterro, com oito caixões ao mesmo tempo, era inédito na localidade. No registro de óbito da família, consta que o filho mais velho tinha doze anos e o mais novo apenas três meses de idade. Todos morreram por volta das sete horas da manhã.

Enquanto os corpos eram velados, os capangas do coronel chegaram a São Tiago para matar a família. Ao perguntarem onde os ‘Gabet’ moravam, foram informados do velório na igreja e não puderam cumprir a ordem do patrão e levar um pedaço da orelha de José Gabet como prova de sua morte. “Apesar de parecerem ter vindo de muito longe, esses jagunços eram da região de Campo Belo, distante 110 quilômetros de São Tiago”, diz Ana Paula.

Fonte e matéria original: http://www.vanufsj.jor.br/2012/01/em-nome-do-pai.html

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