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.: Para quem quer aprender, não há barreiras e nem limites

A partir da década de 50 e 60 começaram a surgir as Escolas Rurais no município de São Tiago, mas não eram todos os povoados que tinham o estabelecimento de ensino. A maioria dos fazendeiros, para educar seus filhos, contratava professoras particulares formadas ou leigas. Filhos de agregados da fazenda poderiam estudar desde que, também pagassem. Ali a professora permanecia por um longo período e ministrava o conhecimento que incluía alfabetização, operações básicas da matemática, noções de geometria, ortografia, gramática e composição de texto. A professora era paga para ensinar, e os alunos eram obrigados a aprender. Muitas vezes, além da disciplina rígida, não poderia haver conversas paralelas, pois ao lado da mesa e próxima à lousa ficava a temida “vara de marmelo”, cuja maioria dos alunos nem se atreviam conversar fora do assunto da aula.

Maria da Conceição Resende Vieira (Sãozinha), 56 anos filha do Sr. José Luiz da Silva e de dona Maria Margarida de Resende foi uma dessas alunas de escola particular na fazenda, quando residiu na comunidade rural do Povoado Patrimônio.



Preocupado com a educação dos filhos o Sr. José Geraldo (Sr. Dé) contratou a professora Maria Souza para lecionar num barracão em sua fazenda. Lá preparou uma mesa com cadeiras e uma lousa.

O desejo de aprender a ler e a escrever era tão grande que Sãozinha pediu ao seu pai que a levasse para a escola da fazenda. Mas infelizmente não poderia porque tinha que pagar. Assim tentava aprender a ler algumas letras de embalagens com auxílio de seu pai que também era semi-analfabeto. Até que um dia suplicou ao seu pai que fosse à fazenda e conversasse com o Sr. Dé para ela estudar. O trato foi feito, mas ela não poderia sentar-se ao lado dos outros alunos e muito menos perguntar, pois não pagava. Deveria aprender em silêncio e de longe.

Contudo, seu pai levou-a na escola da fazenda e pregou um pedaço de tábua em um toco para sua filha sentar. Como não tinha caderno para escrever seu pai ajuntava sacos e embrulho de papéis de grãos comprados “à granel” na cidade, cortava-os de forma retangular e costurava com barbante. Para escrever sua mãe cozinhava com pouca água cascas de uma qualidade de um milho preto que liberava uma tinta escura. Daí esse líquido era colocado num pequeno vidro de remédio juntamente com uma pequena haste de vassoura de capim com a base fina, tudo isso era como se fosse uma caneta tinteiro. Nada foi empecilho para realizar o seu sonho de aprender a ler e escrever.

Tempos mais tarde, no governo municipal dos prefeitos, Antônio Berfort da Mata (1963-1967) e Raul Wilson da Mata (1967-1971) foram construídas mais escolas nas comunidades rurais, inclusive a do Patrimônio. A partir daí não havia mais necessidade de pagar o ensino, era gratuito. Quando se matriculou na Escola Rural do Patrimônio que mais tarde, ganhou o nome de Escola Municipal “Padre José Duque de Siqueira”, já estava sobressaía nas atividades. Foram suas professoras: Nininha do Osvaldo Ribeiro, Adélia do Carmo e Maura do Joaquim da Naninha. Nesse período, as coisas já estavam sendo controladas, tinha caderno e lápis com a borracha na ponta. A escola servia uma deliciosa sopa de macarrão que era feita pela própria professora enquanto os alunos faziam cópia de texto.

Nos três anos que estudou na dita escola, brilhou como aluna. Dizia que para aprender tabuada bastava associar um fato do dia a dia com a multiplicação dos fatos. Certo dia a professora lhe perguntou: “Quanto é 7X8?” Logo disse: “É o peso da Tia Gracinha, 56!”

A escola só oferecia até o 3º Ano do ensino de 1º Grau, alunos que tinham condições, seguiam para o Grupo Escolar “Afonso Pena Júnior” para tirar o 4º ano que compunha a formação elementar ou primária. As coordenadoras das escolas municipais fizeram de tudo para Sãozinha continuar seus estudos, mas como filha mais velha, deveria ficar em casa para ajudar nos afazeres domésticos e cuidar dos irmãos mais novos.

Sãozinha hoje é casada com Antônio Igmar Vieira (Nôca), é mãe de três filhos (Simone Kelly, Marcelo e Paulo César) tem quatro netos e é muito feliz com o que aprendeu na escola e pode ensinar aos seus filhos serem bons cidadãos.

Já para Maria de Lourdes Morais Campos (dona Branca), 54 anos filha do Sr. Moacir Monteiro de Morais e de dona Zenir Vieira de Carvalho foi diferente aprender a ler e escrever. Mora há muitos anos no Povoado Fundo da Mata. Sua vida era trabalhar e cuidar dos afazeres de casa. Na comunidade raramente participava das atividades religiosas. A vida no lugarejo era simples e pacata até que um dia chegaram os membros da Renovação Carismática Católica (RCC) com o objetivo de realizar periodicamente grupos de orações nas capelas filiais da Paróquia de São Tiago.



Os servos do movimento passaram nas casas convidando as pessoas. Algumas tiveram resistência, mas participaram do momento religioso. Para dona Branca a experiência religiosa foi significativa, pois marcou seu engajamento definitivo para atuação na Igreja. Porém não sabia ler nem escrever, mas fez um pedido a Deus que mudasse algumas situações em sua vida e lhe desse o dom de aprender, para ler a Bíblia em casa e, sobretudo, para assumir alguns movimentos na capela de onde vive. Sacerdotes da paróquia necessitavam muito de pessoas para coordenar atividades e realizar celebração da Palavra na localidade aos fins de semana, mas não apareceu ninguém. Então viu nesse momento, uma oportunidade. Com isso, sua filha, Delma que não era formada em Magistério, apenas com o curso comum geral do Ensino Médio, conseguiu sem ajuda de professores, alfabetizar e ensinar sua mãe a ler e a escrever. Esse foi um dos passos principais para que ela se tornasse Catequista, Ministra Extraordinária da Comunhão Eucarística e Dirigente de Culto na celebração da Palavra que acontece aos domingos na Capela de São Sebastião do Fundo da Mata.

Hoje dona Branca, casada com Geraldo Magela de Campos é mãe de dois filhos (Moacir Nunes e Delma) tem dois netos é muito realizada com a família, com os amigos e feliz em ser seguidora da Palavra de Deus.

Marcus Santiago

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