PESSOAS, LENDAS E HISTÓRIAS

Causos e Contos

Pessoas e lendas que fazem parte da história de São Tiago e região.

Produtores rurais Mary e Tiago cultivam cerca de 700 toneladas de variedades de frutas por ano na “Terra do café-com -biscoito”. Empreitada é resultado de muito trabalho e dedicação do casal, que se conheceu em Israel, no início da década de 1990

É do conhecimento de muitas pessoas que o Sul do Brasil é o responsável pela produção de boa parte das frutas brasileiras, principalmente daquelas que necessitam de um clima mais frio. Dentre elas, podemos citar a maçã e a pera como exemplos que dependem de uma condição climática amena para o seu pleno cultivo. No entanto, nem todos devem saber que foi a partir da realização do sonho de um casal, formado por um mineiro, nascido em Oliveira, e por uma inglesa, que se estabeleceu no município de São Tiago, no fim da década de 1990, a primeira plantação comercial de maçãs do estado de Minas Gerais.

Luiz Tiago de Almeida e Mary Anne Almeida, ambos com 48 anos de idade, são os proprietários da Fazenda Lua Dourada, localizada a cerca de dez quilômetros de São Tiago, sentido Oliveira, onde cultivam algumas variedades de frutas, desde 2000. Com uma área total plantada de 30 hectares, a propriedade conta atualmente com 70 mil pés de morango e cerca de 50 mil árvores frutíferas variadas, dentre maçãs, ameixas e pêssegos. A produção total gira em torno de 700 toneladas de frutas por ano.

A maçã, que é o carro-chefe da produção da fazenda, assim como o morango, a ameixa e o pêssego se adaptaram bem às condições de clima frio da região, favoráveis para o cultivo de frutas temperadas. Se isso já era um fator importante para quem deseja trabalhar com esse tipo de agronegócio, outro ponto determinante para que o casal se aventurasse na empreitada foi a enorme experiência que adquiriram nessa área trabalhando com frutas em países desenvolvidos como Inglaterra e Israel.

Podemos dizer que a história entre Mary e Tiago é repleta de coincidências, muito trabalho, determinação e coragem. O ponto de partida dessa jornada se inicia no fim da década de 1980, quando Tiago, ainda bem jovem, decide morar na Europa. Inicialmente, o destino seria a Suiça, mas uma parada em Madri, na Espanha, fez com que outros brasileiros o convencessem a ir para a Inglaterra. Ao chegar em território britânico, com pouquíssimo dinheiro e sem saber o idioma local, Tiago vai trabalhar na colheita de maçãs, atividade frequentada durante um ano. “Apesar da origem dos meus pais ser de São Tiago, eu não tinha experiência com o meio rural. Morei em Oliveira até os 12 anos, e depois disso residi em Belo Horizonte e São Paulo. Pode-se dizer que eu era uma pessoa bem urbana nessa época, mas possuía um ideal socialista de viver numa comunidade rural”, lembrou Tiago, que atuou na militância estudantil e sindical quando morou em BH.

No entanto, após esses doze meses na Inglaterra e com o visto de permanência no país expirado, Tiago foi obrigado a deixar a Terra da Rainha. E para não ser deportado ao Brasil, decide ir para o norte de Israel e procurar trabalho num kibutz, um tipo de comunidade agrícola autônoma israelita. Dica que foi sugerida por colegas judeus, que moravam na mesma pensão que a dele, em Londres. Chegando em Israel, Tiago mal sabia que alguns meses depois conheceria Mary, sua futura esposa, nascida na Inglaterra, mesmo país no qual havia sido “convidado” a se retirar, pouco tempo antes.

Mary Anne “Taylor” (sobrenome quando solteira) nasceu em Chichester, condado de West Sussex, numa histórica vila inglesa, onde morou até os 16 anos. Depois foi para Londres, onde estudou balé clássico até os 19 anos, quando teve que abandonar a atividade devido a lesões. Foi aí que decidiu morar em Israel para trabalhar em fazendas comunitárias ligadas ao agronegócio e que atraíam gente do mundo inteiro. De início, Mary ficaria em Israel somente por dois meses, mas acabou permanecendo por mais de dois anos, entre idas e vindas a Inglaterra e outros países. E foi quando esteve em Israel pela terceira vez que conheceu Tiago, num desses kibutz, momento em que decidiram namorar. Depois de seis meses, retornaram a Londres, e nos dois anos seguintes, Mary e Tiago trabalharam bastante e economizaram dinheiro para gastarem com viagens ao Brasil e para outras partes do mundo, principalmente no continente africano, onde conheceram 14 países.

Em agosto de 1991, mês em que os dois fazem aniversário,Tiago e Mary decidiram se casar em Chichester, mesma localidade onde Mary nasceu. Trabalhando ainda nas colheitas de frutas pela Inglaterra, o casal descobriu que a produção de maçãs e peras era um ótimo negócio, pois o trabalho estava sendo rentável e que os ideais socialistas de antes já não eram tão mais motivantes perante os lucros do capitalismo. “Fomos convidados por um fazendeiro alemão a trabalhar em parceria de forma autônoma. Fazíamos as podas das árvores e organizávamos as colheitas. Nos sete anos seguintes, ralamos muito, juntamos dinheiro e fizemos vários cursos agrícolas como preparação para quando tivéssemos o nosso próprio terreno no Brasil e nossa própria produção de frutas”, contou Mary.

Depois do terreno comprado, onde hoje está localizada a Fazenda Lua Dourada, Mary e Tiago retornaram em definitivo ao Brasil, no final de 1998. Além do município de Barbacena, nenhum outro local na região praticava a produção comercial de frutas. Após várias experiências e pesquisas, resolveram cultivar a maçã Eva, uma espécie variante desenvolvida no Paraná e bem adaptada ao clima ameno e que envolve genes da variedade Anna, de origem israelense e da Gala, da Nova Zelândia.

Apesar de tomarem decisões em conjunto, o casal divide bem as funções no negócio e conta também com a ajuda dos filhos Melissa e Jason nos afazeres da fazenda, além da colaboração de 20 funcionários com carteira assinada e outros 25 colaboradores durante a safra da colheita. Enquanto Mary cuida da parte administrativa, contábil e controle de qualidade, Tiago se encarrega da parte relacionada à produção e parte técnica referente a podas, colheitas e pulverizações necessárias. Tiago explica que foram desenvolvidas e praticadas por ele técnicas particulares de arqueamento, espaçamento e poda de galhos, sendo essas inovações reconhecidas e praticadas até por outros produtores. Outra inovação pioneira em Minas praticada por eles foi a utilização da técnica de irrigação por gotejamento e fertirrigação, também trazida de Israel. Esse tipo de irrigação permite uma maior economia de água e evita perdas por evaporação.

Um grande diferencial em relação às produções de frutas do Sul do país é que a incidência de um clima mais seco nessa região diminui a ocorrência de fungos e consequentemente, há menos utilização de defensivos agrícolas. Desde 2004, uma parceria com o distribuidor Frutas América, da Ceasa, permite que as frutas produzidas sejam distribuídas por toda Minas Gerais, além de se serem encontradas também em estados como a Bahia e o Pará. Uma barraca localizada na entrada da fazenda, à margem da rodovia BR-494, também possibilita que viajantes e moradores de cidades próximas comprem diretamente, além das futas, biscoitos, lanches e um saboroso suco natural de morango.

Para o próximo triênio, com o crescimento e desenvolvimento de outras árvores já plantadas, a expectativa do casal de produtores é que possa atingir uma meta de produção de 1.000 toneladas por ano. Para o futuro, eles também esperam que possam produzir uvas, já que todas as condições climáticas da região são propícias para o seu cultivo.

LuaStock

São Tiago tem uma relação estreita com a música, principalmente quando se fala de rock’ n roll. No passado, a cidade já contou com diversos importantes shows e pequenos festivais ao ar livre em locais como a famosa Paineira, a Praça de Esportes, Campo do Tupinambás e sítios da região. Mantendo essa tradição, acontece desde 2008, nas dependências da Fazenda Lua Dourada, um festival com diversas bandas de rock de BH e outros locais de região que recebe o nome de Luastock. A festa, uma espécie de camping-rock, tem como referência o lendário Festival de Woodstock, de 1969, realizado numa fazenda nos arredores de Nova Iorque. Sem fins lucrativos e com boa organização, o evento é realizado normalmente nos meses de abril ou maio e somente 400 convites são disponibilizados para amigos de Mary e Tiago que queiram curtir três dias de muito rock’ n roll, num clima de total descontração, paz e amor.

*Matéria publicada originalmente na Revista Viva Bem, edição 2, maio/junho 2015.

Na vida simples das antigas localidades de Minas e na falta de recursos deste remoto tempo, fazia com que parte da população das vilas, arraiais e distritos tivessem quase os mesmos hábitos e costumes. Algumas famílias possuidoras de grandes bens desfrutavam de um conforto e um prestígio frente aos que não tinham.

A maioria das casas e casarões não possuía muito haveres. Tudo era construído de acordo com o poder aquisitivo das famílias. As residências mais simples e pobres eram construídas de pedras, madeira e tijolos de barro. Na sala às vezes tinha um banco, uma mesa, uma bia de barro que era colocada água para oferecer aos visitantes. Nos quartos um velho baú de madeira para guardar as “roupas de festas”, uma cama, uma mesa grande com bacia e jarro para o banho e uma lamparina. Na cozinha o velho fogão de lenha (com algumas panelas de ferro e passadas barrela para não queimar demais), um armário (com latas de mantimentos e carne na gordura), uma grande mesa com cadeiras e um banco para empregados e agregados se assentarem quando fossem convidados para se alimentarem com os patrões. As famílias com posses tinham uma casa com mais conforto: boas camas, guarda-roupas, sofás, véu protegendo as camas contra insetos e banheiro. Esses sim podiam descansar receber amigos e convidados para pernoitarem.

Em ambas as condições financeiras as famílias possuíam quintais e hortas com vastos pés de frutas, plantação de hortaliças e flores. Criavam-se galinhas, porcos engordados com restos de comidas e raspa de mandioca. Alguns trabalhavam em casa com teares, bordados, crochês, etc. As mulheres pobres trabalhavam para as senhoras ricas nos serviços domésticos de faxina, pajem de crianças, lavagem de roupas nas bicas, faziam sabão “preto”, “arrumavam porcos”, cozinhavam, faziam biscoitos… Os homens, sobretudo, os escravos trabalhavam duramente nos serviços do moinho de grãos na moenda de cana-de-açúcar, bateamento nas lavras de ouro e em serviços da agricultura e pecuária.

Muitas coisas para a sobrevivência se produziam na localidade ou os donos de mercearias conseguiam para população através dos viajantes, tropeiros, vendedores, como: temperos, tecidos, linhas, sal, objetos para uso diário. Quando não compravam trocavam por algo que produzia com fartura.

Naquela época, poucas coisas se compartilhavam. Repartiam-se carnes (quando se matava porco) e biscoitos (quando se fazia), mas somente se fossem vizinhos próximos ou se algum tivesse dado quando fez em sua casa, caso contrário não!

Às vezes em que as famílias se encontravam era quando participavam das missas nas igrejas principais ou quando convidadas a ajudar na limpeza, organização e ornamentação do templo para as festas religiosas ou sacramentais (batizado, crisma, casamento ou sepultamento). Nesse momento tentava-se reduzir as desigualdades sociais. Mas havia as irmandades dos brancos e negros que lutavam pelos direitos da classe.

Num momento de enfermidade, a cura ou o alívio das doenças vinha dos chás caseiros e benzeções. Não se internava em hospital, pois esse não existia. Ficava em casa aos cuidados da família e de pessoas entendidas e com grande prática em medicina. No momento de ganhar os filhos, algumas mulheres tinham o parto complicado, que nem as parteiras davam conta, com isso, muitas vinham a falecer. Os filhos quando nasciam com sequelas era rejeitado ou não tinha a mesma atenção que outros. Para algumas famílias tornava-se um incômodo.

Havia um pouco de silêncio nas vilas e os comunicados eram noticiados pelos sinos da igreja. Com as suas badaladas na comunidade, logo decodificava o que estava acontecendo, mas sempre informando algo de famílias fidalgas e ricas, como nascimento de seus filhos, morte de pessoas ilustres, tipos de celebração que aconteceria, chamando para a missa cotidiana…

Nas vilas, arraiais e distritos de Minas, no período colonial, os casamentos na Igreja era um jeito de preservar o modelo de família legítima e, para o Estado uma possibilidade de controlar a população e combater o concubinato e as uniões não oficializadas. Assim, o casamento perante a sociedade dava a condição de segurança e dignidade às pessoas diante da instituição de ser uma família. As festas de casamento tornavam-se singulares na vida do casal. Além da bela cerimônia, dos presentes artesanais, os alimentos comuns da festa eram almoço ou jantar com direito a muitas iguarias de carnes, bebidas, licores caseiros de frutas de temporada, doces e vez ou outra café com biscoitos.

Nesta época, embora determinados jovens fossem prometidos em casamento, a filhos ou filhas de outros senhores da comunidade visavam apenas o interesse pelos bens que os outros possuíam. Quando havia contrariedade alguns homens ou mulheres acabavam se encontrando e relacionando secretamente de forma a não serem descobertos, sobretudo, quando o cônjuge saía para trabalhar ou viajar. Com isso, era uma maneira dos casais continuarem vivendo o amor proibido e não perder o contato. Nessas traições aconteciam mortes, quando descobertas, castigo para as esposas, filhos não legítimos, separações, pagamento de dotes às famílias que suas filhas haviam perdido a honra. Havia maridos que saiam à noite para se divertirem fora do convívio familiar; nas tabernas e bodegas com mulheres de vida fácil (como se dizia) ou com os amigos em jogos de baralhos, conversas de negócios e bebedeiras.

As comadres e amigas sempre se visitavam. Não era preciso marcar os encontros essas relações de proximidades acontecia comumente. As pessoas mais ricas se reuniam sempre para conversar, trocar ideias e degustar deliciosos petiscos, festejar algo ou para tomar vinhos e licores que eram produzidos no lugarejo.

A partir da década de 50 e 60 começaram a surgir as Escolas Rurais no município de São Tiago, mas não eram todos os povoados que tinham o estabelecimento de ensino. A maioria dos fazendeiros, para educar seus filhos, contratava professoras particulares formadas ou leigas. Filhos de agregados da fazenda poderiam estudar desde que, também pagassem. Ali a professora permanecia por um longo período e ministrava o conhecimento que incluía alfabetização, operações básicas da matemática, noções de geometria, ortografia, gramática e composição de texto. A professora era paga para ensinar, e os alunos eram obrigados a aprender. Muitas vezes, além da disciplina rígida, não poderia haver conversas paralelas, pois ao lado da mesa e próxima à lousa ficava a temida “vara de marmelo”, cuja maioria dos alunos nem se atreviam conversar fora do assunto da aula.

Maria da Conceição Resende Vieira (Sãozinha), 56 anos filha do Sr. José Luiz da Silva e de dona Maria Margarida de Resende foi uma dessas alunas de escola particular na fazenda, quando residiu na comunidade rural do Povoado Patrimônio.

Preocupado com a educação dos filhos o Sr. José Geraldo (Sr. Dé) contratou a professora Maria Souza para lecionar num barracão em sua fazenda. Lá preparou uma mesa com cadeiras e uma lousa.

O desejo de aprender a ler e a escrever era tão grande que Sãozinha pediu ao seu pai que a levasse para a escola da fazenda. Mas infelizmente não poderia porque tinha que pagar. Assim tentava aprender a ler algumas letras de embalagens com auxílio de seu pai que também era semi-analfabeto. Até que um dia suplicou ao seu pai que fosse à fazenda e conversasse com o Sr. Dé para ela estudar. O trato foi feito, mas ela não poderia sentar-se ao lado dos outros alunos e muito menos perguntar, pois não pagava. Deveria aprender em silêncio e de longe.

Contudo, seu pai levou-a na escola da fazenda e pregou um pedaço de tábua em um toco para sua filha sentar. Como não tinha caderno para escrever seu pai ajuntava sacos e embrulho de papéis de grãos comprados “à granel” na cidade, cortava-os de forma retangular e costurava com barbante. Para escrever sua mãe cozinhava com pouca água cascas de uma qualidade de um milho preto que liberava uma tinta escura. Daí esse líquido era colocado num pequeno vidro de remédio juntamente com uma pequena haste de vassoura de capim com a base fina, tudo isso era como se fosse uma caneta tinteiro. Nada foi empecilho para realizar o seu sonho de aprender a ler e escrever.

Tempos mais tarde, no governo municipal dos prefeitos, Antônio Berfort da Mata (1963-1967) e Raul Wilson da Mata (1967-1971) foram construídas mais escolas nas comunidades rurais, inclusive a do Patrimônio. A partir daí não havia mais necessidade de pagar o ensino, era gratuito. Quando se matriculou na Escola Rural do Patrimônio que mais tarde, ganhou o nome de Escola Municipal “Padre José Duque de Siqueira”, já estava sobressaía nas atividades. Foram suas professoras: Nininha do Osvaldo Ribeiro, Adélia do Carmo e Maura do Joaquim da Naninha. Nesse período, as coisas já estavam sendo controladas, tinha caderno e lápis com a borracha na ponta. A escola servia uma deliciosa sopa de macarrão que era feita pela própria professora enquanto os alunos faziam cópia de texto.

Nos três anos que estudou na dita escola, brilhou como aluna. Dizia que para aprender tabuada bastava associar um fato do dia a dia com a multiplicação dos fatos. Certo dia a professora lhe perguntou: “Quanto é 7X8?” Logo disse: “É o peso da Tia Gracinha, 56!”

A escola só oferecia até o 3º Ano do ensino de 1º Grau, alunos que tinham condições, seguiam para o Grupo Escolar “Afonso Pena Júnior” para tirar o 4º ano que compunha a formação elementar ou primária. As coordenadoras das escolas municipais fizeram de tudo para Sãozinha continuar seus estudos, mas como filha mais velha, deveria ficar em casa para ajudar nos afazeres domésticos e cuidar dos irmãos mais novos.

Sãozinha hoje é casada com Antônio Igmar Vieira (Nôca), é mãe de três filhos (Simone Kelly, Marcelo e Paulo César) tem quatro netos e é muito feliz com o que aprendeu na escola e pode ensinar aos seus filhos serem bons cidadãos.

Já para Maria de Lourdes Morais Campos (dona Branca), 54 anos filha do Sr. Moacir Monteiro de Morais e de dona Zenir Vieira de Carvalho foi diferente aprender a ler e escrever. Mora há muitos anos no Povoado Fundo da Mata. Sua vida era trabalhar e cuidar dos afazeres de casa. Na comunidade raramente participava das atividades religiosas. A vida no lugarejo era simples e pacata até que um dia chegaram os membros da Renovação Carismática Católica (RCC) com o objetivo de realizar periodicamente grupos de orações nas capelas filiais da Paróquia de São Tiago.

Os servos do movimento passaram nas casas convidando as pessoas. Algumas tiveram resistência, mas participaram do momento religioso. Para dona Branca a experiência religiosa foi significativa, pois marcou seu engajamento definitivo para atuação na Igreja. Porém não sabia ler nem escrever, mas fez um pedido a Deus que mudasse algumas situações em sua vida e lhe desse o dom de aprender, para ler a Bíblia em casa e, sobretudo, para assumir alguns movimentos na capela de onde vive. Sacerdotes da paróquia necessitavam muito de pessoas para coordenar atividades e realizar celebração da Palavra na localidade aos fins de semana, mas não apareceu ninguém. Então viu nesse momento, uma oportunidade. Com isso, sua filha, Delma que não era formada em Magistério, apenas com o curso comum geral do Ensino Médio, conseguiu sem ajuda de professores, alfabetizar e ensinar sua mãe a ler e a escrever. Esse foi um dos passos principais para que ela se tornasse Catequista, Ministra Extraordinária da Comunhão Eucarística e Dirigente de Culto na celebração da Palavra que acontece aos domingos na Capela de São Sebastião do Fundo da Mata.

Hoje dona Branca, casada com Geraldo Magela de Campos é mãe de dois filhos (Moacir Nunes e Delma) tem dois netos é muito realizada com a família, com os amigos e feliz em ser seguidora da Palavra de Deus.

Marcus Santiago

A vida nas cidades pequenas é marcada pela tradicionalidade do estilo de vida bucólica. A vivência de costumes marca uma moral social onde seguir tais ensinamentos e conhecimentos fazem parte do roteiro para se viver bem frente aos antepassados. Alguns afirmam que, se assim viverem, jamais irão transgredir as normas e regras de um passado que é marcado pela autoafirmação de um presente que muitas das vezes não há necessidade de tanta ostentação para ser feliz. Basta haver o necessário para viver, um trabalho para se manter, amor para se ter e uma família para se conter.

Para uma comunidade essa vivência é sagrada e não pode ser profanada. Costumes são uma continuidade de algo que se acredita, espera, realiza. Não que haja atraso na vida simples de moradores do interior, mas de algo que vale a pena viver… Família porto seguro, Igreja lugar de orações e de fé, Escola lugar de aprender para no futuro.

Na singeleza da vida interiorana pessoas têm fé e rezam, respeitam o que é sagrado, tomam bênção do padre, dos pais, dos tios, dos padrinhos. Professores são líderes e singulares por ensinar para a vida. Todas as pessoas da comunidade até o último momento da sua vida são especiais. Tiveram uma vida e têm uma história pelo que fizeram ou por problemas não conseguiram fazer, devido suas limitações, mas que se tornaram singulares.

A tecnologia e a libertinagem que a vida às vezes oferece e o forte apelo que a mídia faz em todos os sentidos nos dias de hoje não apresenta para a sociedade nenhuma forma de rever o que tinha de ingênuo e puro na vida utópica do interior. Essa mudança traz algum ganho para a sociedade atual? Pensamos que não! O corre-corre em demasiado ainda é grande! Todos estão atrasados e sempre afoitos, ansiosos para preencher uma sensação de que sempre acaba em “dever não cumprido” e na preocupação sobre o que faremos no dia de amanhã. Pobre de nós! Escravos do tempo e da obrigação! Cadê o amor e a familiaridade de estar junto com o outro? Seria careta viver o sabor do interior que embora seja tão simples não requer muita coisa pra ser feliz?

Certa vez na histórica São João del-Rei observava uma urna que vinha carregada por homens num cortejo fúnebre que dividia a metade da rua com carros que nem pensavam em parar e respeitar aquela família enlutada que chorava o seu ente querido. Nem nesse momento se respeitava a dor de uma pessoa que partira, fosse essa rica, pobre, de família, indigente. Comércio com suas portas abertas e as vendas em vento e poupa… Carros com som infernal de propagandas que ninguém nem prestava mais atenção no que se vendia de tanto repetir a voz do locutor e da música de fundo com um ritmo acelerado. Tudo muito oposto do interior que se solidariza com a família, silenciando lojas, baixando portas, possibilitando que esse momento de recolhimento traga para a família uma paz pelo menos nesse momento de dor.

Marcus Santiago

 

Na região rural de São Tiago conhecida como Gamelas, quem espanta os visitantes é o espírito de um padre “doido” por metais preciosos. Segundo a historiadora e professora Elena Campos, por volta de 1708, época do Brasil colônia, o religioso José Manuel era dono de escravos e extraía ouro de sua propriedade. “O que se conta é que para presentear o rei de Portugal, o clérigo mandou fundir parte do ouro em forma de cacho de bananas. Porém, o rei, sabendo disso antes de receber o tal presente, considerou a atitude de José Manoel uma ofensa ou até mesmo um risco à Coroa, e mandou prender o padre e confiscar seus bens. Mas, antes de ser preso, o clérigo escondeu o ouro em alguma parte de suas terras, para evitar que outras pessoas sofressem como ele”, conta.

Mas, a história se espalhou e o que não faltou foi gente atrás do tesouro. O escritor Ademir Mendes é uma dessas pessoas. No livro que publicou em 2011, ele conta o mistério do ouro das Gamelas. Junto de alguns amigos, aventurou-se dentro da gruta com o objetivo de ficar rico. “Entramos, um a um, muito receosos e prevenidos para alguma emergência. A passagem era muito estreita, permitia a entrada de uma pessoa de cada vez. Dentro do buraco o espaço era maior e nós conseguimos ficar de pé andar normalmente. A luz do dia foi ficando escassa e impediu que nós continuássemos nossa jornada. Ouvimos dizer que lanterna não funciona dentro do buraco e, do lado de fora, funciona normalmente. Não aventuramos ir muito longe no escuro, pois falavam da existência de uma fenda muito profunda, sem fim, dentro da gruta”. O grupo de rapazes desistiu de encontrar o ouro e voltou para cidade sem se tornarem milionários.

O técnico de som, Rosauro Caputo, também se aventurou atrás do tesouro. Com 53 anos, ainda se lembra da aventura que passou quando tinha 20. Junto de uma turma, Caputo decidiu procurar o cacho de banana dourado. “Conseguimos entrar apenas uns três metros dentro da gruta, pois a gente não tinha luz e havia muitos animais. Se foi coisa do padre ou não, tivemos que sair correndo, pois fomos atacados por um enxame de maribondos”, conta. Não por acaso nossa equipe de reportagem também foi atacada por uma nuvem de maribondos enquanto fazia uma fotografia para matéria.

O técnico de som também traz na memória muitas histórias sobre o local. A mais impressionante é a de um homem de Oliveira, cidade distante 56 quilômetros de São Tiago. O tal homem se dizia guiado por um espírito e foi até a Fazenda das Gamelas tentar a sorte. “Ele furou um buraco muito grande. Durante o trabalho, teria ficado louco, fato que motivou sua família buscá-lo e levá-lo amarrado para a casa. Depois de voltar para Oliveira, a família do homem teria ficado rica”, diz Rosauro.

Segundo Elena, essa história tem um fundo de verdade, já que, de acordo com registros, as terras eram mesmo desse padre. Mas, a historiadora ressalta que é preciso cuidado, já que não existem indícios de garimpo na fazenda das Gamelas. “Apesar de a lenda afirmar que as terras eram ricas em ouro, alguns historiadores não acreditam nessa hipótese, já que não há indícios de que houve grande movimentação de mineração na região. O fato é que a história surgiu não se sabe ao certo porque, mas até hoje mexe com o imaginário das pessoas”, afirma.

Dizem que em noites escuras, na região da Pavuna, a dois quilômetros do centro de São Tiago, o choro do espírito de uma mãe atordoa quem passa pelo local. Entre as ruínas de uma casa do início do século passado, a alma de Maria José Gabet, a Nhanhá Gabet, veste preto e vaga em gemidos e lágrimas pela morte dos sete filhos e do marido, fato ocorrido dia 13 de setembro de 1916. O espanto em torno do caso é por conta das circunstâncias das mortes. O pai da família, José Gabet, obrigou todos a tomar vermífugo. O remédio, na realidade, era estricnina, um veneno potente. Um a um, os filhos e o casal foram tombando em agonia. No entanto, Nhanhá Gabet sobreviveu graças à ajuda dos vizinhos. De 1916 a 1960, ano de sua morte, a matriarca nunca deixou de vestir roupas pretas, luto eterno que guardou em respeito à família.

Mas, o que teria motivado o pai a matar os filhos, a mulher e a cometer suicídio? Segundo as histórias contadas ao longo dos anos, José Gabet era um boiadeiro que sempre viajava em comitivas de gado para o oeste de Minas Gerais. Numa dessas idas, engravidou uma filha de coronel. “Isso aconteceu na ocasião em que o peão contraiu febre amarela e teve que ficar por mais tempo que o esperado numa fazenda que servia de pousada. Por lá, conheceu uma jovem com a qual teve um caso, e acabou tirando sua honra. O pai da moça, um homem muito rígido, prometeu vingança. Seu objetivo era matar José Gabet e sua família em São Tiago”, conta Ana Paula Lara, professora de história que fez sua monografia sobre o assunto.

Ainda de acordo com Ana Paula, a moça grávida teve pena do que poderia acontecer com boiadeiro. Mandou um mensageiro avisar José Gabet sobre risco que estava correndo. “Sem saber o que fazer e num ato desesperado, o peão foi a São João del-Rei e comprou veneno numa botica para matar toda a família. Depois de beber com o marido e dar o tal vermífugo para os filhos, Nhanhá Gabet percebeu que as crianças estavam agonizando. Ela começou a gritar e os vizinhos foram acudir. Ao verem a cena, os moradores do local deram leite para a mulher que vomitou o veneno”. Mas, para Ana Paula, “a mãe sobreviveu porque tomou veneno em cápsula, enquanto o resto da família ingeriu a estricnina em pó, que tem ação mais rápida no organismo”, afirma.

A comoção social em torno do caso gerou lendas sobre a família. A agente de saúde Kássia Campos morre de medo só de ouvir falar no nome de Nhanhá Gabet. Moradora de região próxima ao local do crime, ela conta que são comuns os relatos de pessoas que já ouviram o choro triste da mãe que perdeu os sete filhos. A própria agente de saúde relata já ter escutado gemidos vindos do lugar. “Quando eu era criança, fui com minhas irmãs e primas até a Pavuna. Lá, nós escutamos vozes de outras crianças, mas não tinha ninguém”. Nessa época, Kássia ainda não conhecia a história do crime. Foi na adolescência que ela descobriu sobre as mortes e encontrou uma explicação para o barulho de crianças que ouviu no passado. “Daí eu liguei os gritos daquelas crianças com as pessoas que haviam morrido. E isso gerou o pavor que tenho só de pensar naquele lugar”. A agente de saúde diz ainda que nem de carro gosta de passar pela Pavuna.

O comerciante João Batista de Andrade, o Batista, tem uma venda próxima ao local em que aconteceram as mortes da família Gabet. E ele próprio garante já ter visto coisas estranhas por lá. Em 1973, quando sua esposa entrou em trabalho de parto, teve que ir buscar uma parteira numa rua próxima de sua casa. No meio do caminho, ao avistar a Pavuna, viu uma luz estranha no local. “Sai de casa por volta das duas da madrugada e por acaso olhei para o caminho que levava à Pavuna. Vi uma luz na casa de Nhanhá Gabet. O clarão ia e voltava, parecendo procurar algo ou alguém. Isso me fez arrepiar e ao me lembrar das mortes, fiquei mais apavorado ainda”, lembra.

Em sua venda, típica do interior de Minas Gerais, Batista ouve contar muitas dessas histórias. A que chamou mais a atenção do comerciante foi a do enterro fantasma dos Gabet. Batista se lembra do relato de um homem que teria tido uma visão de assombrar. “Seu Geraldo Campos contava que depois de jogar baralho por um longo tempo na casa de um amigo, na cidade, precisava voltar para sua casa, na roça. O caminho era pela Pavuna e, como de costume, seguiu tranquilo em seu cavalo. Ao passar pela ‘cava’ que se estendia até próximo à casa dos Gabet, viu um funeral, com oito pessoas carregando um caixão. Achou aquilo estranho, principalmente porque era tarde da noite. Parou o cavalo, tirou o chapéu, fez uma oração e depois seguiu caminho. No dia seguinte voltou à cidade e, ao questionar algumas pessoas, inclusive o coveiro, descobriu que ninguém havia sido enterrado aquela noite”, diz Batista.

Mas, a professora Ana Paula descarta essas versões sobrenaturais em torno do ocorrido. Para ela, não há justificativa para o choro póstumo de Nhanhá Gabet, já que a matriarca poderia ter feito isso ao longo dos 44 anos em que viveu sem a família. “Apesar do grande choque, ela levou sua vida em frente. Trabalhou em Bom Sucesso (cidade vizinha a São Tiago) como diretora de um orfanato e, ao voltar para sua terra, dedicou-se a ajudar quem necessitava. Boa parte do seu tempo passava dentro da Igreja”, comenta.

A história marcou o então distrito de São Tiago. O enterro, com oito caixões ao mesmo tempo, era inédito na localidade. No registro de óbito da família, consta que o filho mais velho tinha doze anos e o mais novo apenas três meses de idade. Todos morreram por volta das sete horas da manhã.

Enquanto os corpos eram velados, os capangas do coronel chegaram a São Tiago para matar a família. Ao perguntarem onde os ‘Gabet’ moravam, foram informados do velório na igreja e não puderam cumprir a ordem do patrão e levar um pedaço da orelha de José Gabet como prova de sua morte. “Apesar de parecerem ter vindo de muito longe, esses jagunços eram da região de Campo Belo, distante 110 quilômetros de São Tiago”, diz Ana Paula.

Da janela da cozinha, Ermínia se lembra das aparições da Luz do Mundo.

Também não são raras as histórias de pessoas que já tiveram algum contato com objetos voadores que emitem luzes. Apesar de o nome ser diferente em cada cidade da região dos Campos das Vertentes, em São Tiago, a 45 quilômetros de São João del-Rei, o fenômeno é popularmente conhecido como “Luz do Mundo”. Por lá, a história é levada tão a sério, que tem até livro que trata sobre o assunto. Em 2008, a pedagoga aposentada, Ermínia Caputo, reuniu narrativas que ouviu e vivenciou ao longo dos anos. Na obra intitulada “Acaso são estes os Sítios Formosos?”, a escritora descreve cenas de aparição da Luz do Mundo.

Não existem estudos científicos sobre o fenômeno, mas no imaginário popular a explicação vem de fatos religiosos. A narrativa oral informa que a Luz do Mundo teve origem numa maldição. Uma jovem teria sido enterrada com uma fita que simboliza a irmandade católica das Filhas de Maria, o que é proibido. Por conta disso, a alma da moça se transformou em uma luz que vaga pelo mundo. Seu descanso só viria se algum corajoso lhe retirasse a fita. E gente disposta a fazer isso tem aos bocados em São Tiago.

Em seu livro, Ermínia relata o episódio de um senhor que desafiou o medo e tentou apanhar a fita do espírito. “No local denominado Vargem (próximo ao centro da cidade), a Luz aparecia muito, beirando o esbarrancado que há por lá. Um senhor muito simples, que vivia a puxar esterco para vender, dizia não ter medo da Luz e se propôs a tirar-lhe a fita de Filha de Maria. Um dia ela apareceu e, corajoso, ele chegou perto dela. À medida que se aproximava, ela ia se afastando, até que ele caiu no esbarrancado”. Ermínia diz que o homem não se machucou, mas também não conseguiu pegar o que queria.

Outra história de gente que enfrentou a tal Luz aconteceu numa noite de pescaria. O aposentado José Batista Santana, que garante já ter visto o fenômeno várias vezes, conta o medo que passou com um amigo. “A gente saiu para pescar num lugar conhecido como Ribeirão da Fábrica (a oito quilômetros do centro de São Tiago). No meio do caminho, encontramos um conhecido, que disse que a gente ia encontrar a Luz. Meu companheiro zombou do moço e falou que se encontrasse a Luz, ia puxar o seu pé. Quando a gente estava perto do Ribeirão, avistamos de longe uma brasa de fogo. Ficamos um pouco receosos, sem saber o que era aquela luz, mas continuamos. A luz foi ficando mais forte e clareou as águas do rio. Ficamos com tanto medo que resolvemos voltar para a cidade”, admite.

Mas o que a dupla de pescadores não esperava é que a Luz fosse acompanhá-los até bem próximo da cidade. “Quando a gente chegou perto duma porteira, lá estava ela. Sem saber o que fazer, tiramos o chapéu em respeito e passamos no meio do clarão. Depois disso ela voltou pro mato e sumiu dentro de um esbarrancado”. Santana conta ainda que ficou arrepiado, mas garante que o amigo ficou mais apavorado ainda e que nem teve coragem para puxar o pé da assombração. Depois desse episódio, o aposentado, ressabiado, afirma que “não se deve abusar com essas coisas”.

Esse não foi o único caso de aparição da Luz para a família Santana. O aposentado lembra que sua mãe viu o espectro perto do moinho que tinha na roça em que moravam. Sozinha com os filhos pequenos, Antônia Liberata de Jesus precisava buscar o fubá para o jantar. No meio do pasto, deparou-se com o clarão. O horror foi tanto que ela voltou às pressas para a fazenda. Mas a Luz a seguiu até uma porteira. Sem saber o que fazer, Antônia começou a rezar e passou no meio daquele brilho. Assim que chegou à casa, guardou os cachorros, ordenou que os filhos ficassem quietos e continuou a rezação. Logo em seguida a Luz foi embora.

Ermínia, a escritora, também garante já ter visto a Luz várias vezes da janela de casa, principalmente no entardecer. “Ora ela andava, ora ela aumentava de tamanho, ora ela abaixava o facho. Tinha cor amarelada. Eu nunca a ouvi chiar, mas tem muita gente que diz ter ouvido barulho vindo da Luz”. Ermínia não acredita na lenda da assombração com fita no pescoço e assegura que não sente medo. Mas, para ela o fenômeno pode ter explicação científica. “É alguma coisa natural. Pode ser um fogo-fátuo (gases de decomposição que em contato com oxigênio entram em combustão), um balãozinho. Eu acredito nisso, mesmo com tantas histórias de pessoas mais velhas e até da minha idade acreditarem no mito da Luz”, afirma.

Não se sabe ao certo de onde vem a lenda da Luz do Mundo. Hoje, poucas pessoas relatam sua aparição, apesar de quase todo mundo da cidade conhecer suas histórias. Ermínia diz que isso é um fato importante, porque se trata do registro da história de um povo. “Era um tempo que não havia luz elétrica, televisão, computador. Mas esses casos vêm da oralidade, do passar de um para outro. Eles tinham a função de alentar nas noites escuras. É um patrimônio imaterial. Assim como a gente tem os livros, as roupas, os álbuns dos antepassados, também temos que preservar esse tipo de patrimônio”, defende.

Lendas e histórias de fantasmas povoam a imaginação de pessoas que moram em pequenas cidades de Minas Gerais. Esses casos vêm de uma época que nem existia luz elétrica. Mas, até hoje, eles metem medo em muita gente.

Bruno Ribeiro, Douglas Caputo, Michele Santana

O que não falta no interior de Minas Gerais são histórias de assombração e lendas que atravessam gerações. Por aqui, as crianças já nascem envolvidas com esses casos. Os pais acreditam que devem enterrar o cordão umbilical dos filhos para que ratos não o comam. Caso contrário, a pessoa pode virar ladrão. Também vêm de pequenas cidades mineiras e de suas fazendas coloniais mitos de fantasmas que povoam a imaginação das pessoas. Não é difícil encontrar um morador que não tenha presenciado ou ouvido falar de barulhos de correntes, choro de escravos ou passos de pessoas madrugada afora.

Um exemplo disso é a aposentada são-tiaguense Maria Caputo de Castro. Ela conta o aperto que passou com os irmãos numa noite escura na roça. “Quando eu deitei, a cama começou a gemer. Chamei uma irmã mais velha, que disse que era coisa da minha cabeça. Mas amolei tanto, que ela resolveu pegar uma lamparina para procurarmos alguma coisa debaixo das camas, mas não encontramos nada. Aí, quando a gente deitou de novo, foi um barulhão de tábua caindo no sobrado. Tivemos tanto medo que enrolamos em cobertores e fomos pra casa de um vizinho acabar de passar a noite, pois os barulhos não iam embora. No outro dia, quando voltamos para nossa fazenda, estava tudo em ordem, inclusive as tábuas do sobrado”. Maria não sabe explicar o que aconteceu naquela noite, mas desde criança ouvia dizer que a casa era assombrada e até hoje não gosta de se lembrar daquela passagem.

Essas histórias são tão famosas no interior mineiro que em São João del-Rei foi criado, em 2007, o grupo “Lendas São-Joanenses”, com o objetivo de preservar relatos que contam um pouco da história local. Pelo menos uma vez por mês, 14 pessoas, entre guias turísticos e atores, levam visitantes para conhecerem locais com episódios de arrepiar. São 12 encenações no total, mas segundo o organizador do grupo, o guia Jadir Janio, três delas se destacam no itinerário das apresentações noturnas pelas ruas históricas da cidade. Um destes mitos é o que dá nome ao bairro Segredo. Janio comenta que o episódio vem da época da escravidão, quando uma sinhá resolveu se vingar do marido e de sua amante, uma escrava da família. “Ao descobrir a traição, a senhora matou a adúltera e cozinhou seu coração para que o esposo comesse. O fato foi escondido do marido e o segredo acabou nomeando a região onde o episódio teria acontecido”, explica.

Outra lenda que chama atenção dos turistas em São João del-Rei é da “Chica mal-acabada”. Janio diz que se trata de uma mulher que ia à igreja e colocava um espelho na bíblia para paquerar um rapaz que se sentava atrás dela. “Como isso é pecado, ela passou a ver, no lugar da imagem de seu pretendido, a figura do diabo. Para parar de ter visões de Satanás, a ‘Chica’ arrancou os próprios olhos”. A lenda do “retrato” também faz sucesso entre as pessoas que acompanham o grupo. Trata-se de uma senhora que abordou um padre, recém chegado a São João del-Rei, e pediu que ele fosse até a sua casa para confessar o filho à beira da morte. Quando chegou ao local, o religioso viu uma foto da mulher que havia pedido o sacramento. Perguntou para os moradores da casa onde ela estava e foi informado que ela havia morrido fazia três anos.

Dom Pim Quixote

Guardado na memória da maioria dos são-tiaguenses, Chrispim José Ferreira, o Pim, é uma lenda viva que atravessou gerações e deixou marcas na lembrança de muitas pessoas.

Em São Tiago, há quem acredite na imortalidade de uma das principais personagens da história local. Não é difícil encontrar pessoas mais velhas que confirmem a existência do místico matusalém da cidade.

No entanto, a perenidade do andarilho urbano não atravessou os séculos como muitos defendem. Consta em seus documentos sua idade correta: 75 anos. Mas, a vivência num universo boêmio e descompromissado, criou no imaginário popular a figura do caricato Dom Quixote de São Tiago, que continua, pelo menos na memória das pessoas, com sua errância infinita.

Este tempo que não se esgota ecoa, até hoje, através das notas desafinadas que vinham de sua gaita e de suas batidas descompassadas no peito. Coração rítmico da orquestra de um homem só.

O menino

Mas, Chrispim nem sempre teve essa vida de andarilho. Ele só deu os primeiros passos aos 13 anos de idade. Sua irmã, Amélia Carmem Cardoso, conta que “a mãe carregava ele nas ‘cadeiras’ pra cima e pra baixo”. Filho caçula de cinco irmãos, Pim é lembrado pela irmã “como um menino bobo, que nunca foi à escola”.

Mas de bobo Pim não tinha nada. Quando se desgrudou da barra da saia da mãe, ele mostrou a que veio ao mundo. “Foi só isso pra ele dar trabalho, porque ele andou demais. Não sossegava em casa e vivia perambulando pelas ruas da cidade”, conta Nela, como Chrispim chama a irmã.

Outra característica do Pim era inventar apelidos paras as pessoas. Ele não chamava ninguém pelo nome de batismo, mas usava referências quando queria cumprimentar ou chamar a atenção de alguém. A professora aposentada Madalena Caputo virou “Dica do Adi” na linguagem chrispiana.

“Dá mamá”

O apelido usado por Chrispim para chamar a atenção de Madalena veio numa situação que se repetiu com muitas mulheres de São Tiago. O que brincalhão queria mesmo era pedir “mamá”.

“Eu estava passando quando ouvi ele me chamar: Dica do Adi, Dica do Adi… dá mamá”. Envergonhada e brava com a situação, Madalena garante que não teve alternativa, senão “ameaçá-lo com uns tapas, que não foram dados”, garante Dica.

O comerciante Anival Floriano da Silva, o Nibal, conviveu com o Pim durante muitos anos no estabelecimento do cunhado, o famoso bar do João Aleluia. Nibal se diverte ao lembrar-se de uma história que envolve o Chrispim e tal do “mamá”.

“Ele sempre pedia ‘mamá’ para uma determinada mulher. Revoltada, ela contou pro marido, que prometeu uma lição ao ‘pilantra’. Certo dia, a mulher ficou no lugar que o Chrispim sempre passava e o marido ficou escondido nas proximidades. Quando o Chrispim chegou, percebeu a emboscada e ignorou a mulher. Ela achou estranho e, querendo a todo custo que o marido desse a lição, gritou para o Pim: ‘Não quer mamá hoje não!?’ Ele, como espertalhão que era, respondeu imediatamente: ‘Hoje não, hoje não. Chupou manga”, ri Nibal.

O cunhado de Pim, João Batista Cardoso, defende o parente como um filho. “Não foi ele quem inventou essa história de ‘mamá’. Tinha uma mulher que bebia muito e que andava por ai pra rua também. Foram os homens dos botecos que ensinaram para o Chrispim a pedir ‘mamá’ pra ela”, argumenta Cardoso.

Festeiro

Comemorar o que quer que fosse era o passatempo predileto de Chrispim. Dorival Márcio de Castro, herdeiro do tradicional bar do Tião Coité, local de passagem obrigatória do errante, lembra como era o Natal perfeito do Pim.

“Ele sempre estava aqui, brincando com o pai. Quando era Natal, não tinha jeito, a gaita era o presente que ele não abria mão de receber. E a gente dava com a maior satisfação”, lembra Castro.

Já no Carnaval, Pim apenas incrementava a fantasia que usava diariamente e que ajudou a construir o mito. Sentado no bar do Tião Coité, a maquiagem rabiscada com batom pelo proprietário do estabelecimento reforçava o espírito carnavalesco do Quixote.

Cardoso confirma a história. “O Chrispim gostava muito. O Tião Coité era quem fantasiava. Ele pintava a cara do Chrispim toda de batom. A roupa dele chegava aqui em casa tudo pintada”, lembra.

Castro recorda também que Tião Coité, em certo carnaval, resolveu colocar uma dentadura de vampiro no Pim. “O problema foi para tirar. Ele não tinha dentes e produzia muita baba. Acabou sobrando pro pai retirar os dentes postiços”, comenta.

Nem na Quaresma, período em que cidades pequenas guardam silêncio, Pim sossegava. Ele gostava de fazer sua própria Encomendação de Almas, movimento não-ligado à Igreja que entoa cânticos chorosos e batidas de matraca em encruzilhadas para livrar almas do Purgatório.

Castro conta que Chrispim fazia questão de acordar a família toda com o seu próprio ritual. “Ele subia as escadas da casa do pai e cantava um choro doído. Depois, batia palmas para imitar a matraca”.

Já na Semana Santa, era um deus-nos-acuda. Depois de muita cachaça e cerveja que pedia em um copo de água mineral muito sujo, Pim não se conformava em ficar em casa. Gostava mesmo era de sair para a rua e imitar a cantoria de Verônica.

Cardoso conta que o fujão sempre encontrava um jeito de sair. “Teve uma Semana Santa que eu ia pra procissão. Antes, tive que trazer o Chrispim tonto pra casa. Depois, fui pra procissão. Já na igreja, recebi o recado de que ele tinha pulado a janela. Foi um custo danado encontrá-lo pela cidade e trazê-lo de volta”.

Mas, para o espírito livre de Chrispim, tudo acabava em bagunça. Não por acaso, Cardoso garante que “ele sempre foi festeiro, Carnaval, banda de música, ele ia atrás para segurar aqueles cartazes que a banda carregava. Folia de Reis. Tudo que era festa ele tava no meio. Era festa de Igreja, subia até no altar e mexia até com o padre”.

“Caixão preto”

Se as anedotas com as mulheres de São Tiago viraram um bordão do Pim, outra moda que pegou na cidade foram os gritos de “Vai morrer no caixão preto”, que eram destinados ao Quixote da gaita.

Não se sabe ao certo de onde veio a ladainha do “caixão preto”, mas, segundo Nibal, o comerciante, Chrispim teria herdado a achincalhação de outro doidivanas de São Tiago.

“Isso foi há muito tempo, quando um senhor chamado Joaquim Nicolau, doente também, ficava irritado quando lhe diziam que ia morrer num caixão preto. As mesmas pessoas que falavam do tal caixão com o Joaquim, passaram a fazer medo no Chrispim desde que ele era criança”.

A família não confirma essa história e apresenta outra versão dos fatos. “Ele não tinha medo de caixão preto, o que ele não gostava é que falassem que ele ia morrer. Por isso, ficava bravo e saía resmungando”, conta Cardoso, cunhado de Pim.

Várias vezes Castro presenciou o galhofeiro xingar e atirar cuspe nas pessoas por conta do tal caixão preto. “Era a defesa dele. Os meninos mexiam com ele, falavam que ele ia morrer, o negócio de caixão preto. Às vezes um passava e batia nele. Então, a arma, a defesa do Pim, era jogar baba nas pessoas”, afirma.

Amigos

Apesar das muitas rusgas que teve com pessoas da cidade, Chrispim também soube cultivar amigos. Entre eles está Nibal e sua esposa, Nelimar Santiago. No casório dos dois, a maior surpresa veio justamente do Pim.

“Nem imaginamos como ele soube que nós íamos nos casar. Ele foi até o bar do Tião Coité e pediu uma caneca. Isso foi muito significativo e até hoje temos a canequinha que apelidamos de caneca do Chrispim”, conta Nelimar.

Outra amiga era a popularmente conhecida Tita, morta em 2005. Não havia um dia que o “cavaleiro andante” passasse sem almoçar na companhia da senhora.

Segundo a sobrinha da anfitriã, Maria de Lourdes Resende, a Cairu, “Tita adotou o Pim como um filho. Ela morava sozinha e sempre gostou de receber em sua casa pessoas como o Chrispim. E se a Tita não estava animada para fazer almoço só para ela, a presença do Chrispim lhe fornecia o ânimo suficiente para enfrentar o fogão”, afirma.

Depois da morte de Tita, Pim passou a filar o almoço no restaurante do ‘Zé’ Mauro. Antes da comida, ele clamava por um ‘aperitivo’, mas o dono do local recusava o pedido. Para compensar a falta de cachaça, Pim ganhou um lugar vip no restaurante.

“Ele ficava esperando o prato de comida numa cobertura do lado de fora, que fizemos especialmente para ele. E o almoço tinha que ter o que ele gostava como arroz, feijão, frango e quiabo. O dia que não tinha carne, ele pedia. Pedia mesmo, sem se preocupar se estava ganhando o almoço ou não”, afirma José Mauro.

E é com os olhos marejados que o dono do restaurante fala da amizade que preserva até hoje com Chrispim.

“Eu ainda vou à casa dele de vez em quando levar um pouco da comida. Certa vez, cheguei e ele já estava com o prato na mão, comendo aos poucos e meio desanimado. Quando me viu, disse todo entusiasmado ‘Zé! Zé!’. Pegou o marmitex da minha mão e colocou o prato de lado”, conta José Mauro.

Exageros

Pim nunca se importou com os exageros que cometia. Com as pernas e os pés muito inchados e cheios de feridas, não deixava de perambular pelas ruas da cidade.

Outro exagero que Pim cometia sem nem se dar conta eram as bebedeiras sem limites. A falta de informação da família e a dificuldade de recursos para um tratamento especializado fez com que os parentes tomassem uma medida extrema. Foi preciso prender o errante em casa.

“No começo não foi nada fácil. Eu buscava na rua, fechava aqui dentro de casa. Ele ficava muito bravo e nem conseguia dormir. Mas, com o passar do tempo, O Chrispim foi se acostumando à nova vida e hoje não sai pra nada”, conta Cardoso.

Já faz quatro anos que Chrispim não anda pelas ruas da cidade. E há poucos meses foi diagnosticado com um câncer no reto. Por isso, viaja toda semana para tratamento radioterápico em Belo Horizonte.

Acamado e bastante debilitado, como mostram as fotos tiradas recentemente, Pim quase não se comunica e são poucas as pessoas que ele reconhece. Segundo o cunhado, o andarilho de outras épocas ainda continua sua jornada, mas apenas dentro de casa.

E pelo agravamento do estado de saúde, Chrispim depende das pessoas para atividades corriqueiras. Apesar do diagnóstico positivo para o câncer, o Quixote de São Tiago insiste em suas andanças sem fim pela memória de todo são-tiaguense.